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Carnaval e Resíduos Sólidos:

  • Foto do escritor: IPPÊ - Instituto Para periferias
    IPPÊ - Instituto Para periferias
  • 12 de fev.
  • 4 min de leitura

O Carnaval brasileiro é amplamente reconhecido como a maior festa popular do

mundo, atraindo milhões de foliões e turistas. É tempo de alegria, diversidade, música e

ocupação dos espaços públicos. No entanto, junto com a festa, surge um grande desafio: o

impacto ambiental causado pelo excesso de resíduos sólidos gerados durante os dias de

folia.


Pode parecer bobeira, mas o papo é sério. Copos descartáveis, latinhas, garrafas

plásticas, embalagens de alimentos, fantasias de uso único e microplásticos são alguns dos

principais resíduos encontrados nas ruas após os desfiles e blocos. Em poucos dias de

festa, toneladas de lixo são produzidas, sobrecarregando os sistemas de limpeza urbana,

escoamento hídrico, impactando a infraestrutura urbana e causando danos ao solo, à água

e à sociobiodiversidade.


Nas favelas e periferias, isso se resume em ruas obstruídas, valas entupidas e

sistemas de drenagem sobrecarregados, aumentando o risco de alagamentos, sobretudo

em áreas que já sofrem com deficiência histórica de saneamento básico. Além disso, o

acúmulo de resíduos favorece a proliferação de vetores de doenças, como ratos, baratas e

mosquitos, afetando diretamente a saúde das populações mais vulneráveis. A pressão

sobre a infraestrutura de limpeza urbana também recai de forma desigual, pois enquanto

áreas centrais recebem respostas mais rápidas, favelas e periferias tendem a enfrentar

maior tempo de exposição aos resíduos, agravando desigualdades socioambientais.


Para se ter ideia, no Carnaval 2023 a Comlurb retirou mais de 1.236 toneladas de

resíduos das ruas da cidade após as celebrações, quase o dobro do que foi removido no

Carnaval pré-pandemia de 2020. Grande parte desse volume foi orgânico, mas apenas uma

pequena fração era potencialmente reciclável. Em 2024, esse percentual aumentou para

cerca de 1.400 toneladas de resíduos, sendo 738 toneladas apenas dos blocos de rua, um

sinal claro do impacto gerado pela ocupação massiva dos espaços públicos. Dados mais

recentes de Carnaval 2026 mostram que somente no primeiro fim de semana de

megablocos, antes mesmo das datas oficiais de desfile, foram recolhidas 59,4 toneladas de

lixo nas ruas do Rio de Janeiro.


O estudo de Sodré e colaboradores (2025) mostrou que as concentrações de

microplásticos nos sedimentos de praia aumentaram significativamente durante o Carnaval

de 2024, em comparação com períodos antes e depois da festa. O tão adorado glitter,

amplamente utilizado em maquiagens e fantasias, revelou-se um dos principais problemas

ambientais associados à festa.


Entre os microplásticos encontrados, fragmentos de glitter foram os mais prevalentes

(66,3% do total), seguidos por fibras (26,2%), pellets ou grânulos (7,5%). Isso indica que

produtos ligados diretamente às festividades (como glitter) são uma fonte significativa de

poluição. E mesmo depois do fim do Carnaval, os níveis de microplásticos permanecem

elevados por dias, em alguns casos, por meses, evidenciando que a poluição vai além da

data da festa.

Os efeitos dos microplásticos extrapolam a simples presença de partículas no

ambiente, pois eles comprometem a saúde dos organismos costeiros, impactando a

estrutura e funcionamento de ecossistemas, alterando relações da cadeia trófica, que em

determinado momento acabará retornando os impactos aos seres humanos.

Além da responsabilidade individual dos foliões, é fundamental destacar o papel dos

organizadores de eventos, blocos de rua, patrocinadores e do poder público na adoção e

estimulação de práticas sustentáveis, como a redução de descartáveis, a instalação de pontos de coleta seletiva e o estratégico apoio a cooperativas de catadores. A gestão dos

resíduos também impacta diretamente os trabalhadores da limpeza urbana, que enfrentam

jornadas intensas durante o Carnaval, muitas vezes lidando com resíduos cortantes,

contaminados ou descartados de forma inadequada. Valorizar esse trabalho é parte

essencial de um Carnaval verdadeiramente sustentável.


A diversão não precisa estar em conflito com o meio ambiente. Celebrar a festa de

forma sustentável é assumir um compromisso com o futuro. A festa passa, mas os resíduos

ficam, e a responsabilidade também.


Para que a alegria do Carnaval não deixe um rastro de impactos ambientais

negativos, algumas atitudes simples podem fazer toda a diferença:


● Leve seu copo reutilizável e evite o uso excessivo de copos descartáveis.

● Descarte o glitter plástico e opte pelo glitter orgânico (Bioglitter).

● Descarte o lixo corretamente, utilizando lixeiras e, sempre que possível, separando

os resíduos recicláveis.

● Reduza o consumo de plásticos, dando preferência a embalagens retornáveis ou

reutilizáveis.

● Evite confetes e serpentinas metalizadas, que não são recicláveis e poluem o meio

ambiente.

● Valorize catadores e cooperativas, respeitando o trabalho de quem contribui

diretamente para a limpeza e reciclagem pós-folia.

● Use transporte coletivo, bicicleta ou vá a pé, reduzindo a emissão de poluentes.


O Carnaval pode e deve ser uma festa de alegria, respeito e responsabilidade.

Quando cada folião faz a sua parte, a celebração se transforma em um ato coletivo de

cuidado com a cidade, com as pessoas e com o planeta. Porque cuidar do planeta também

é um ato de amor.



Fontes:

Prefeitura do Rio de Janeiro – Comlurb. Comlurb fecha operação de limpeza do Carnaval

2023 com remoção de mais de mil toneladas de resíduos. Prefeitura da Cidade do Rio de

Acesso em: 03/02/2026.


Prefeitura do Rio de Janeiro – Comlurb. Comlurb removeu 59,4 toneladas de resíduos no

primeiro fim de semana de megablocos. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 26 jan.


Sodré, G. I., Martins, G., Lopes, M. G., Abude, R. R. S., Augusto, M., Cunha, M. M., ... &

Cabrini, T. M. B. (2025). Impact of large events on microplastic pollution on sandy beaches:

a case study of Carnival in Rio de Janeiro, Brazil. Estuarine, Coastal and Shelf Science,

109582.

 
 
 

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